Thursday, May 04, 2006

No princípio era o latido



Minha vida foi sempre repleta de cachorros. Até onde consigo me recordar, os cachorros sempre estiveram presentes. Minhas lembranças mais antigas trazem com elas um focinho ou um latido. Não me recordo de um primeiro cachorro mas de uma mescla de cães que vieram e se foram em tempos diferentes e alguns ao mesmo tempo e que se confundem agora num único cachorro primordial, o fundador de uma saga de alegrias e tristeza nesse convívio com essa outra espécie companheira, tantas vezes superior em caráter ao chamado homo sapiens.

De fato, a mais antiga de todas as lembranças, o contato primeiro de todos, foi com um "Tenerife" que aparece nas fotos antigas ao lado de minha mãe quando ela estava grávida de mim. Tenho a impressão de que ouvi dizer que tinha sido um presente de meu pai e que ele o teria trazido da Europa ao retornar de uma viagem pela Marinha de Guerra. Mas não tenho certeza e infelizmente não há quem esteja vivo daquela época para esclarecer esse detalhe.

Atualmente essa raça ganhou contornos de sofisticação e eu diria de 'frescura' com cortes e penteados e um nome rebuscado de "frisé" ou "bichon frisé". Naquela época ele era do jeito que tinha que ser, sem penteados ou cortes extravagantes que ao meu ver parece que agradam mais aos humanos que aos próprios cachorros, vítimas da vaidade pessoal de seus donos que os têm mais como ostentação e moda que como amigo e companheiro. Mas isso é outra história que vou deixar para depois.

Aqui está uma foto de minha mãe com o "Dudu" - acho que era esse o nome (vou colocar depois que achar!)

O nome mais antigo do qual me lembro é "Dick", um outro Tenerife muito brabo e que só obedecia minha mãe. O restante da família ele tratava da mesma forma que os gatos, rosnando e se possível mordendo. Bem moleque ainda, recordo-me de ter levado uma de suas famosas dentadas por ter passado ao seu lado enquanto ele cochilava no quintal. O Dick era assim, um sujeito de poucas conversas e um mínimo de abanos de cauda a não ser para minha mãe que ele considerava rainha única e absoluta no império do quintal.

Aqui uma foto bastante estranha onde ele está ao meu lado com o outro cachorro mais antigo de minha vida, o "Bob". Até hoje não entendo como ele estava ali sentado na cadeira sem me morder, como seria o mais natural e provável em condições normais.

Pelo jeito, parece que a foto foi tirada após um banho e os dois deviam estar meio assustados e certamente por isso o Dick não aparece ali mastigando minha mão. Eles também tinham muito medo de meu pai que deve ter tirado essa foto. O Bob ainda era pequeno e é dentre todos o que posso considerar como tendo sido realmente meu primeiro cachorro. Com ele vivi grandes 'aventuras' caçando gambás e cachorros do mato no mangue em frente de casa quando ele já era bem maior do que nessa foto. Onde está você Bob?


eu, Bob e Jardel, um colega de infância


Lembro-me do Bob sempre pulando o muro e correndo para atravessar a rua e mergulhar no mangue sempre que via lá ao longe os cachorros do mato que desciam das matas do morro da Marinha para pegar caranguejo quando a maré estava vazante. Como isso parece - e de fato é - uma lembrança tão antiga!


Dick, eu e Bob

Olhando melhor, nessa segunda foto se pode perceber que o Dick está rosnando e com sua peculiar cara de poucos amigos e que se não fosse pela presença fiscalizadora e ameaçadora de meu pai, ele não ficaria ali sentado só no ensaio do ataque. Deve ter sido um momento de triunfo esse meu instante com o Dick dominado. Provavelmente depois da foto ele deve ter me mordido, mas isso era coisa natural.

O Bob tinha um pequeno, quase imperceptível percentual da raça Setter e uma avassaladora quantidade de outras raças misturadas, um verdadeiro vira-lata com toda a honra e respeito. São os melhores de todos disso não há dúvida nem junto aos mais especializados criadores e admiradores de cães. Por serem um amálgama de raças, o vira-lata tem em si todas e ao mesmo tempo nenhuma das características particulares e são sempre uma agradável companhia, quase sempre surpreendendo seus donos com a inteligência e a amizade que lhes são peculiares. Mais resistentes, são os que mais estão ao nosso lado em todas as situações.

Mal comparando, o vira-lata é como o bom carioca que se dá bem com todos e que a todos sacaneia e que sabe curtir a vida quer seja no palácio ou na favela, para ele tanto faz o que importa é ser feliz. Não é uma regra mas é quase um procedimento padrão dos 'sem raça'. Podemos dizer que o cão sem raça é o de melhor raça afinal.

Minha infância toda na Ilha, a maioria dos cães dessa época também eram ilhéus. Embora a presença mais marcante dessa época seja a do Bob, houve outros dos quais me lembro com carinho e saudade. Teve a "duquesa" uma cachorra que achei perdida na rua e que trouxe para casa e que quando meu pai viu que era uma cadela não quis que ela ficasse conosco porque teria filhotes. Discute daqui, chora dali, venceu meu pai a discussão e depois de alguns dias ele a levou para longe de casa. Soube depois que a deixou numa praça num outro bairro da Ilha. De noite, quando quase todo mundo já estava dormindo, ela voltou não se imagina como e ficou lá no portão chorando até que meu pai incrédulo e aborrecido se levantou e foi lá abrir o portão para ela entrar e nunca mais sair lá de casa. Lembro que teve filhotes e que demos esses filhotes para alguns conhecidos mas não lembro como nem quando ela própria saiu da história de nossas vidas. Mortos todos eles estão agora, inclusive a maioria absoluta de todos os parentes.

Mas, como dizia, houve muitos outros cachorros. Teve o "Buck" que era um boxer bonachão que nos foi dado por um tio. Veio com pedigree cheio de referências a pais e avós campeões mas que vivia ali no quintal disputando comida com o Bob e revirando a lata de lixo como qualquer outro que tivesse chegado sem muitas qualificações. Sofria do coração. Um dia teve um ataque, ficou ali babando e quase morreu. Meu pai o curou jogando um balde de água fria na cabeça dele. Alguns anos depois ele foi dado de presente para um outro parente que tinha quintal mas não tinha cachorro (não consigo imaginar um quintal sem cachorro até hoje!).


eu com Buck em frente de casa na Ilha

Os cachorros não viveram só com os humanos naquela casa da Ilha. Por ali passaram os micos (inclusive um mico-leão dourado que vivia solto e que caçava pardais incautos que pousassem nas janelas. Naquela época os micos podiam viver nas casas e eram bem mais felizes e abundantes do que hoje, quase extintos sob a proteção de órgãos e leis que mais favorecem o seu desaparecimento que sua preservação). Tinha um ou dois gatos, galinhas, galos, passarinhos e papagaio gritando no puleiro.

1 Comments:

At 2:44 PM, Blogger MELLO said...

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