No tempo dos cachorros do mato

Nasci na Ilha no final da década de 40. Na rua onde eu morava passavam tão poucos carros que tinha até um cachorro que costumava dormir no meio da estrada que sequer era asfaltada. De noite ele ia ali para o meio da rua onde se deitava no mesmo lugar de sempre, uma pequena depressão onde dormia até o amanhecer. Não havia ainda ônibus, só "lotação" que não circulava de noite e os carros eram todos estrangeiros, a maioria pretos do tipo que se vê agora nas novelas de época.
Nessa paisagem tão mais tranquila e tão menos perigosa e poluída, os cachorros circulavam pelas ruas sem correrem os perigos atuais. Era comum encontrar cachorros conhecidos em outros bairros e muitas vezes ao sair da Escola Cuba lá no Zumbi eu encontrava o Bob passeando perto da praia como se estivesse me esperando para me acompanhar de volta até em casa.
Um dos sinais do progresso foi dado através do aumento de cães atropelados. Lembro que era uma surpresa o comentário de que algum cão tivesse morrido sob as rodas de um carro. "Como pode? Quem atropelou? De quem era o cachorro?".
Lembro também que quando ia pescar de barco com meu pai algumas vezes levávamos o Bob no 'caíque' e que ele ia soberano na proa fiscalizando o mangue a procura de alguma novidade. Bastava ele ver alguma coisa interessante para pular na água e sair nadando. Quando não o levávamos, ele seguia o barco correndo e latindo pela estrada que margeava o mangue até que nós saíssemos do canal depois de passar por baixo da pequena ponte que separava a colônia de pescadores da estrada principal.
Toda essa tranquilidade começou a se desfazer quando a ponte que liga a Ilha à Ciidade foi inaugurada em 1949. Até aquela data, para sair e entrar na Ilha só pelas barcas. Sem a ponte, a maioria dos carros era de moradores do próprio local. A ponte trouxe o movimento de carros e o pânico para a cachorrada local.
O Bob costumava também ficar esperando os cachorros do mato (câes vinagre
) aparecerem para pular a cerca do quintal, atravessar a rua e pular no mangue para tentar pegá-los. Do quintal lá de casa a gente podia ver quando os vinagres saiam da mata da Marinha e desciam para o mangue para pegar caranguejos. Vinham em grupos pequenos, talvez de meia duzia cada, que se espalhavam pelo lamaçal sempre que a maré estava baixa. Nunca chegavam muito perto do lado onde morávamos e mantinham uma distância de segurança e respeito, talvez já pressentindo que os humanos seriam o fim de sua espécie em pouco tempo. Não lembro de outros cachorros os atacando a não ser o Bob que também não conseguia ir até eles mas que os afungetava com seus latidos insistentes. Esses cachorros do mato têm (ou tinham quando eram vivos) uma adaptação de membrana nas patas que facilitava eles nadarem ou se locomovem na lama. Outrora habitantes da Mata Atlântica, parece que estão atualmente completamente extintos por força do progresso...A imagem que guardo dessa época é do Bob imponente, sentado no quintal com a atenção voltada para o lado do mangue de onde sabia que os vinagres iriam aparecer, geralmente de tarde. Ele ficava ali imponente sem mexer o corpo a não ser as orelhas e com o olhar fixo num ponto distante. Assim que via os cachorros ele se levantava e mudava a fisionomia e se estivesse por perto ele me olhava rapidamente voltando depois o olhar para os vinagres como se estivesse
me dizendo "olha, lá estão eles!". Ele ficava assim por um tempo até que num momento exato para o seu instinto ele corria e pulava a cerca e entrava no mangue até onde podia e de lá ficava latindo até que os vinagres desaparecem no manguezal. Imagino que ele jamais tenha chegado perto de algum. Se a maré tivesse cheia ele poderia ir até lá nadando mas os vinagres só apareciam na maré baixa e o Bob não conseguiria andar até lá sobre a lama.Essas são as lembranças mais antigas de meu primeiro grande amigo, companheiro de bons momentos da minha infância. Não consigo me lembrar como ele se foi. Não me lembro dele morto ou de alguém me dizendo que tinha morrido. Desapareceu como tantas outras lembranças daquela época. De repente não estava mais ali. Todos os demais cachorros que tive desde então, trazem no olhar um pouco da expressão do meu grande amigo Bob, com quem aprendi sobre a superior dignidade canina e o quanto é importante tratá-los com respeito para deles receber respeito em troca. Não se tem um cão. Ninguém pode se denominar dono de um cão ou se ter um cão como brinquedo ou passatempo ou ostentação. Somos seus companheiros e se quisermos saber mais sobre o sentido da vida temos com eles a chance de muito aprender e de muito ensinar em troca. De qualquer forma é uma lástima que os cães não tenham hoje o espaço e a liberdade e que vivam confinados em apartamentos com horários e regras para um ou outro passeio presos pela guia. Mesmo assim, ainda se pode conseguir muito se a relação for de respeito, consideração e amor. Adaptamo-nos a tantas coisas de que não gostamos e os cães também aprenderam a se ajustar a essas modernidades para poderem continuar ao nosso lado.


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